Ao longe ouvem-se as 19h na
igreja nova da trofa. Todos os passos do transplante são relembrados.
Banho de betadine. Vestir a bata
e colocar a touca. Deitar na maca. Empurrar a maca na rampa de Sta Marta.
Entrar na UCI. Parar na entrada do bloco. “Até já” aos meus pais e ao Marco. Sorrir.
Deitar na maca do bloco operatório. Olhar para o relógio. 19h. Anestesia. E a
magia acontece.
E agora? Estamos 12 anos depois a
relembrar tudo isto. Uma dúzia anos se passaram desta odisseia. Todos os anos
acho esta “maratona” incrível e cada vez mais sinto que sou uma sortuda por ter
toda esta história. A Fibrose Quística não é uma doença simpática, nem de longe
nem de perto, mas conseguiu tornar-me numa pessoa equilibrada. Alguém que
consegue ver sempre o copo meio cheio e acreditar que o dia de amanhã será
sempre melhor.
Nesta doença, às vezes fazem-nos
acreditar que o dia de amanhã é uma bênção e que pode não existir, mas a vida
mostra-me que o dia de amanhã é um direito, é um sonho a concretizar e que algo
de muito bom me trará.
O transplante pulmonar é o meu
renascimento. Renascer para vida, renascer para os sonhos, renascer para algo
tão incrível como o nosso dia-a-dia e para sorrir.
Não é uma vida fácil, não é algo
que “passa”, é mesmo algo que durará a nossa vida toda, mas cabe a cada um de
nós torna-la o mais feliz e realizada possível.
No dia de hoje à 12 anos atrás,
tive medo, tanto medo! Medo de nunca mais ver os meus, de nunca mais abrir os
olhos, de tudo ter acabado ali naquele momento. E olhava para a minha vida e
tinha sido feliz, mas tinha sabido a tão pouco, não podia terminar ali, não
podia ser assim comigo.
E hoje, tanto que teria perdido
se tudo tivesse acabado ali. Uma vida de sonhos concretizados. Viver momentos
com os meus, ter a minha família junto de mim, ter os meus melhores amigos ao
meu lado incondicionalmente. E este ano que não foi fácil, mas tive ainda o
privilégio de se juntarem a mim os meus melhores guerreiros. Todos vocês
fazem-me acreditar que sou capaz de tudo e se olhar para trás sinto-me tão
orgulhosa do que tenho construído.
Hoje o dia é de gratidão.
Gratidão ao Marco, que nesse dia
esteve horas aos pés da minha cama e não deixou de acreditar por um segundo que
eu era capaz de chegar aqui hoje.
Gratidão aos meus pais, á minha família
e amigos que estão incondicionalmente aqui.
Gratidão aos médicos, enfermeiros
e fisioterapeutas que tão bem de mim trataram para estar nas melhores condições
para o transplante e aos que cuidaram tão bem de mim depois para que hoje
estivesse aqui a escrever 12 anos depois.
Gratidão aos que se juntaram a mim
e á minha luta diária e sei que não é fácil para eles também.
E agora uma mensagem para a
comunidade da FQ: aos doentes de FQ que são fonte da minha inspiração. Todos os
que lutaram e não conseguiram vencer esta doença mas são um orgulho da forma
que lutaram até à última inspiração.
Aos que estão cá, sempre comigo,
que no último ano foram transplantados e partilhamos tantos ensinamentos. E a
quem ainda espera e não desiste de lutar todos os dias para se manterem fortes
para o grande Dia. Obrigada a todos vocês!
Este dia também é vosso, é da
vossa Lipa, a Lipa que vos adora de coração.
Uma lufada de oxigénio a todos.
Filipa *